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Arquivo de outubro, 2008

A vida é uma grande palhaçada

13, outubro, 2008 Paulo Marinho Sem comentários

A vida é uma grande palhaçada, pensa Tomas, lembrando de seu pai, enquanto fuma um cigarro mentolado em sua varanda de frente para o parque da Aclimação. Seu beagle deitado em seus pés, esquentando suas meias úmidas de andar no chão molhado de chuva, lhe dão uma boa sensação dentro a turbulência de sua mente. Queria ser o seu beagle agora. Preocupado em comer, defecar, dormir, e brincar um pouco com alguém, ou algum outro cachorro. Isso é a vida dele. Nada de palhaçada, somente… Simples.
O cão levanta e olha fixamente para baixo. Vira de lado sua cadeira, para não se esforçar nem derrubar o notebook apoiado em suas pernas. Um casal passeia com um labrador, preto como a noite que cai, serelepe como todo bom filhote, principalmente da raça. A música do JJ72 acaba em seu ipod, e inicia Interpol, uma das mais tristes, Pioneer to the falls. E o casal ainda passeando com o cachorro a passos pequenos. O que dera tão errado? Ou por que nada dera errado? O que era esse vazio que volta e meia o preenchia? O que era essa constante insatisfação com tudo que o rondava? E porque durante tanto tempo nada parecia afetá-lo assim, e de repente, como um furacão, tudo veio a tona?
Às vezes é bom curtir uma deprê, disse um amigo. Um que não conseguia sair desta deprê a muito, desde uma separação abrupta. Parou e entrou um pouco mais na musica. Pioneiro, não combinaria mais com prisioneiro? Era esta sensação que pulsava das notas azuladas que saiam do headphone.
O homem se afastou e foi a padaria, ou boteco. Sempre discutia com sua esposa sobre isso. Às vezes um boteco crescia demais e ficava com cara de padaria. Mas padaria é onde se faz pão. Não onde se vende cerveja, cigarro, e alguns sanduíches. A mulher colocou a mão em seu rosto, parecia-lhe. No escuro não podia ter muita certeza de nada. Ainda por cima na segunda Guinness. O cachorro tentava subir e lamber a mão dela. Ah, ele sentia isso. Ele vivera isso. Aquela mulher devia estar chorando. Ou prestes a chorar. Ou cheirando a choro. Cachorros sabem. Sentem.
Radiohead, Arpeggi. Pensava nesta mulher, quase chorando na praça, e olhada para a tela de seu note. Um choro vinha a sua garganta. Sentia que estava ali do lado da mulher. Ali, no boteco, comprando uma cerveja barata e um maço. Ali, pulando para afagar sua dona.
Mas não. Estava mesmo ali. Sozinho, na varanda. Com seu cachorro. Fazia um frio cortante, com um resto das gotas de garoa da tarde, mas nada que sentisse. Que sentisse. Nada. Um carro freou bruscamente um pouco acima da praça. Olhou para a tela. O cursor piscando em uma tela branca, vazia. Fechou o notebook e acendeu um cigarro, improvisando uma lata como cinzeiro. A imagem o veio imediato. O carro parou ali. Debaixo de uma das suas arvores. Das suas. Pavement, In the Mouth a Desert. A adolescência misturava-se com a maturidade. Mas a sensação era a mesma. Não sabia dirigir, a timidez crescia a cada palavra certa e tremula. E a boca calava o som das palavras certas, deixando um tremido de insegurança sair. Tudo igual, mas diferente.
Devia ter escolhido outra playlist. O homem voltou com uma garrafa grande de cerveja na mão, cigarro na outra, e a mulher ainda encostada no gelo baiano, mas sem a mao no rosto. Alguém falou alto de dentro do apartamento avisando que ia dormir. Deu um boa noite sedado de lembranças e abafado de sons. Tommy levantou a cabeça e olhou para o dono, como se perguntando se podia ir para a cama. O sorriso esquálido do dono fez com que deitasse de novo em suas meias.
O casal ia, com a mulher um pouco atrás do homem, com o labrador a rodeando. O carro continuava debaixo de sua arvore. Luzes apagadas, somente um braço com um cigarro para fora da janela. A vida continuava a andar enquanto ele girava em poucos graus sua cadeira de varanda. Sua mulher disse algo, mas o som das guitarras do Pavement a abafaram.
Por que esta passividade humana? Por que esta falta de coragem para… ah… Videoteque. Lembrou da frase que nunca saiu de sua cabeça. A vida não era uma sitcom. Nem um filme do Woody Allen. A vida é uma merda, ela disse. Dessa merda saiu. Mas para se afundar na passividade de todo dia. As crianças são sábias. Vidas despreocupadas, e já com tanta sapiência. Não somente pela sua transparência. Elas gostam de rever um filme, por mais simples e inocente que seja, repetidamente. Assim como fazemos com nosso dia a dia. Só que com um filme mais dramático. Com filmes de romances trágicos, com terores cotidianos. Com insatisfações recorrentes. Os atores mudam, o diretor muda, mas é a mesma historia, de novo e de novo.
Queria conhecer mais de Beckett, sempre se prendeu a medalhões como Shakespeare. Em um de seus textos, lembrou, Beckett perguntou, com um de seus personagens, que já havia crescido, estudado, casado, tido filhos, os criado, quando realmente ele iria nascer. Tomas se perguntava o mesmo. E olhava para as suas arvores. Ali, durante duas vezes em sua vida, teve uma chance de recomeçar. Together or Alone, Sebadoh. Nada mais perfeito. Nada mais cruel de playlists que você fez, pois elas, quase sempre, se encaixam de certa forma em sua vida.
Lembrava do dia em que estava debaixo daquela árvore, cada um com seu cigarro na mão. Só que com as janelas fechadas, para ver ate quando o carro agüentaria de fumaça com eles conseguindo se ver. Maluquices de jovens. Como sempre, geniais insanidades. Muita gente acha que isso é uma antítese, ele sempre achara complementar. A mulher começara a deixar o homem na frente, olhando literalmente para o céu enquanto andava. Tomas acompanhou seu olhar. Ceu lindo, estava certa de admirar e tentar se recompor com ele.
Bateu-lhe o medo de algo similar que lhe acontecera. No meio da fumaça, sua tentativa, inusitada a amiga, de beijo, gerou-lhe uma bela de uma queixada. E a minação de toda sua coragem e esforços. Ela ainda o chamou para ficar mais um pouco, abrindo as janelas. Ele correu, por assim dizer (nem tanto), para casa.
Tommy subiu em seu colo, como se escutando a trilha sonora se aproximar. Não era impossível, dada a audição dos cães. E, como mágica, começou a tocar Por Você, em seus ouvidos, a mesma música que escutou quando aquele cachorro, ainda com meses de idade, após ter urinado em sua cara enquanto dormia, naquela mesma casa. Quando, logo após este escárnio, sua namorada decidir que não poderia ficar com ele porque eles não eram compatíveis. Ele jura até hoje que o motivo era que ele escutava racionais MC. Após se despedir dela e do casal que ela levou ao fim de semana (na verdade, um casal gay, que por caminhos da vida viraram seus melhores amigos), levou um conjunto de seis cervejas em um isopor, um maço de cigarros, o cachorro que sua recém ex namorada o deixara, seu walkman (sim, somente radio) e sua cadeira de praia e se pôs ali, no meio de uma praça, onde escutou musicas em seqüência como Por Você, e Presente de um Beija Flor, que já já deveria tocar em seu playlist. Poucas pessoas já devem ter escutado esta musica do Barão e não pensar em alguém externo, mas sim em si mesmo. Uma pena que, no caso de Tomas, esta sensação durou até uma mulher brincar com Tommy e rachar suas cervejas, seus cigarros, seu apê e sua vida. Era importante que durasse mais, pensa.
E lá estava ele, agora somente com o carro debaixo da mesma arvore que lhe abrigara uma cabeçada e uma seqüência radiofônica reveladora. Onze da noite. Nada mais deveria acontecer naquela praça. Pelo menos por esta noite. Nada além de uma vista panorâmica a momentos decisivos de vida não aproveitados ao máximo.
Tommy latiu. Queria ainda passear. Pegou seu sobretudo, depositando seu maço e Guinness devidamente no bolso de cada lado,e o ipod preso em sua calça. Não devia sair já após algumas, mas o cão é quem manda. Não houve tempo nem de atravessar a rua, Fo quase que imediato. Ah, se cães soubessem usar areia instintivamente como gatos, o mundo seria mais limpo.
Tomas andou até a árvore, onde o carro estava parado. Magic Numbers, Take a Chance. Olhou para o carro. Vidro fechado, tudo embaçado, além do vidro fume. Sentou-se debaixo da arvore, deixando Tommy solto para brincar com os pássaros da noite. As lembranças e decepções vinham como nunca. Uma mão desembaçando o vidro fez pensar nas decisões certas. Em tornar a vida um pouco menos ordinária do que todos fazem dia após dia.
Um labrador aparece latindo correndo atrás de Tommy. Os dois se jogam, Tommy com a barriga para cima, como sempre fazia com todos os filhotes que via. Negro como a noite. Uma mulher senta ao lado de Tomas. Fora de forma, cabelos pretos, branca como a morte. Parecia a que vira da varanda.
Longa noite, não?, ela pergunta, tirando um maço de cigarros e acendendo um. Você que me diga, retruca Tomas, rindo dos cachorros brincando.
- A gente se apaixona, ou da a vida aos filhos, ou se fode tentando fazer o dia a dia menos sofrido do que é, né? – e traga sua primeira boa baforada da noite. – A vida é uma palhaçada, falava um tio meu de infância. Acho que só entendi o que ele falou depois de …
E mais uma boa baforada. Daquelas onde ela sentou cada palavra fala antes, e se preparava para as próximas. – A ida é uma grande palhaçada mesmo. Os árabes que estão certos, de nascerem com narizes maiores preparados para a palhaçada, não é?
-Só nos falta um bom palco. – retrucou Tomas, caçando a Guinness e seu maço de cigarro
-Quer palco melhor para essa palhaçada? Já falava o Chico, todo dia ela faz tudo sempre igual…
-Me sacode às seis horas da manhã, e me sorri um sorriso pontual….
-E me beija com a boca de hortelã.
-Prazer, Tomas, palhaço honorário.
-Lilian. Palhaça de tablado, tentando fazer o pessoal sair da mesmidão com um pouco de Shakespeare e Beckett. Você conhece?
-Não tanto quanto eu deveria.
Uma camisinha voou do pouco de fresta que abriram da janela do carro. Os cães foram imediatamente atrás, como um graveto, e brigavam por ele. Os dois riram e se abraçaram. Tomas lembrou de novo de sua cabeçada, como havia sido uma coisa primaria. Por que se importara tanto? Por que uma coisa tão simples tirara seu foco?
-As vezes, as coisas que deveríamos fazer, bloqueamos. – disse. – Quem disse que era fácil chegar na felicidade? Tem tanta coisa nos bloqueando no meio… Água, luz, relacionamentos….
-Mas você, me desculpe a intimidade, sempre esta tão cheia de vida…
-EU venho aqui de vez em quando me preencher do vazio. Sem nada, consigo ser tudo. Ser vida, viver.
-E quem você é, Lilian?
-Só uma atriz fracassada de Shakespeare, tentando me encontrar em Beckett, mas achei que fosse mais fácil…
-Não há grande ou pequeno autor, só aquele que você se renasce.
-Isso me lembra algo de Beckett, do Shakespeare…. Me lembra…
Os cães continuaram a latir e brincar. Mas a vida, uma palhaçada ou não, não parou. Debaixo da arvore, eles riram, falaram baboseiras, e se entenderam. E se viram no mesmo papel. Mas tentando encontrar um viés em que a vida não fosse só uma palhaçada. E fácil encontrar um caminho que a vida seja romântica. Tomas, um romântico inveterado,e Lilian, uma fachada para que Lilian mostra-se sua verdadeira faceta, eram só facetas de um filme repetitivo que passa na nossa televisão ininterruptamente. Eles se encontraram e poderiam ter um final feliz, debaixo de uma arvore, assim como você.
Você Já entendeu a palhaçada do todo: Ou encontrou a sua arvore?

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Começar a Terminar, JCVD

13, outubro, 2008 Paulo Marinho Sem comentários

Peça sensacional, de uma forma inusitada, a Começar a Terminar. Andre Abujamra nunca me decepcionou, e continua a não me decepcionar. Não entendo nada de Beckett, infelizmente, mas as grandes frases me cativaram. A dúvida de quando finalmente iriamos nascer, genial. Me deu curiosidade do Beckett e do teatro do absurdo, que me parece bem similar a onirica de David Lynch.

Mundando do vinho para a agua, acho que sou um dos poucos que está louco para ver o novo filme do Van Damme, JCVD. Sim, suas inicias. Sim, o filme é meio uma satira a ele mesmo. Sempre achei-o um comediante que nunca tinha explorado seu potencial, alem de em entrevistas, no Letterman, até no Jo. Este filme parece ser cheio de boas sacadas que poderiam ser até repetidas, mas vindo de um dos grandes nomes dos filmes de artes marciais, fica genial.

Abaixo um teaser e um trailer:

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Por uma Vida Menos Ordinaria

2, outubro, 2008 Paulo Marinho Sem comentários

Analisando friamente, acho que deixei muita inspiração musical mesmo fora do livro. Apesar dele beber diretamente em Fantomas, Bowie e Portishead, quem acabei colocando mais musicas foi NIN e REM. Coincidentemente, 3 letras ambos. Chato inserir musicas que eram o tema direto, mas não pela musica, como P da Vida.

1 The world has turned and left me here-Weezer
2 Popeye – Harry Nilsson
3 Confortably numb – Pink Floyd
4 P da vida – Dominó
5 Fly me to the moon – Frank Sinatra
6 Roots – Sepultura
7 Superstar – Sonic Yout
8 Cure for pain – Morphine
9 Clos4r – Nine Inch Nails
10 Tainted love – Marilyn manson
11 Tumulto – O Rappa
12 Silence – Portishead
13 That will be the day – Buddy Holly
14 Without you im nothing – Placebo + David Bowie
15 Merry christmas (i dont wanna fight tonight) – The Ramones
16 Sexo e karate – Plebe Rude
17 Suspended animation – Fantomas
18 Hanging around – Cardigans
19 It’s the end of the world (as we know it) – REM
20 Addicted to you – Alec Empire
21 Candy – Iggy Pop + Kate Pierson
22 Relicario – Nando Reis
23 The great beyond/ man on the moon – REM
24 Cancao pra voce viver mais – Pato FU
25 Missed – PJ Harvey
26 Strangers when we meet – David Bowie
27 A toda a comunidade do Engenho Novo – o Rappa
28 Stop that pigeon – Reverendo Horton Heart
29 Crystal lake – Grandaddy
30 The fragile – Nine Inch Nails
31 Would it be nice – The Beach Boys
32 Nada – Los Pirata
33 Mais uma dose – Barão Vermelho
34 Wish fulfilment – Sonic Youth
35 No surprises – Radiohead
36 4th of july – Soundgarden
37 Everything in its right place – Radiohead
38 Metal contra as nuvens – Legião Urbana
39 Not so amused – Sebadoh