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Coky

8, fevereiro, 2002 Paulo Marinho Sem comentários

:: CHInewsKI Online – Edição nº 40 – Rio de Janeiro, 8 de Fevereiro de
2002::

APOCALIPSE NOW

Coky

O boato que a maior empresa do mundo estava pra cair era forte. Todo mundo, seja em Bangladesh ou em São Paulo, mesas de bar ou vernissages, se escutava alguém falando “Tem algo mesmo, ouvi que vão fazer um pronunciamento na rede mundial em breve.”.Os rumores cresciam, mas nenhum outdoor, nenhuma chamada na tev6e, nada. Imaginavam que iam querer pegar o mundo de surpresa, assim como foi o lançamento da Your Tv, My Tv, que eram as câmeras do governo instaladas na casa de qualquer um sendo utilizadas para qualquer um ver a casa do outro quando quisesse, só digitar o endereço e o nome de um morador, que poderia escolher. O maior sucesso da televisão na história. Também, no canal mundial facilitava muito as coisas. Até 7 de Janeiro, era o programa mais utilizado da teve.
Era. O presidente do Coky, Albert Brooks, estava numa mesa que aparentava ser a mesa de reuniões da empresa. As operadoras de telefone, email, entraram em pane. Somente o WarnerICQ conseguiu se manter, e foi muito utilizado. Junto de Albert, um xará seu, de sobrenome Einseinstein. E um rapaz e uma garota lindos.
-…Meus caros amigos ,- começou a falar, depois de mais de um minuto tremendo e olhando para baixo- Sei o respeito que todos vocês tem por nossa empresa. Minha família tem tomado conta dela por gerações, e dado produtos de qualidade, campeões em todas as linhas. Mas o que tenho para falar não é nada muito feliz. – Close no rapaz e na garota sexys, dependendo de quem estava vendo a televisão.
CLIENT RATING : 65%
-Meus caros, venho falar que nós erramos. Antes que o caso chegasse a população, resolvemos nós mesmos, ou melhor, eu, o presidente da Coky, de uma família que vem cuidando do produto camp….. – percebendo que se repetia, pigarreou, ajeitou seu ponto eletrônico e não olhou mais para as câmeras.
CLIENT RATING : 73,8%
Um vídeo começou a ser mostrado com a história da empresa. Mostrou Finlay Brooks criando o seu primeiro produto, a Coky em si. Pela primeira vez, mostrou que realmente havia o uso de cocaína e produtos químicos de limpeza em sua composição. Continuaram mostrando a evolução da empresa, seus novos produtos, como eles ajudaram a solucionar a crise de falta de água com seus produtos feitos por pura química, e como seus produtos foram combatidos durante anos pelos ambientalistas até a crise de água.
CLIENT RATING ; 83,9%
-Pois bem- disse ele, voltando a ser mostrado, com o rosto quase tocando a mesa – eles estavam certos. Há um erro em nossa fórmula que somente agora após anos pode ser comprovado cientificamente.
CLIENT RATING : 97,9%
-Para melhor explicar o que está acontecendo, passo a palavra para o maior biogeneticista de nosso tempo, que foi o que nos provou, juntamente ao governo mundial, o caso.
-Obrigado. Meus camaradas, sei que o que falarei não será fácil de ser escutado, e nem muito compreensível ou assimilável facilmente. Pois vem, descobrimos que a combinação de tais produtos provocam uma deteriorização em nossos organismos. em nossos organismos. Sei que todos voces tem uma asprigna por perto, não é a toa que este é o remédio mais vendido do mundo.
Ele é um dos que combate os efeitos da combinação de nitrog… bem, dos elementos da composição dos produtos Coky. Temos notado o aparecimento de várias doenças misteriosas, como a AIDS e a …
CLIENT RATING : 100 %
Todas as televisões, celulares, computadores e cereber conectados ao canal.
- … Sei que é difícil imaginar isso, mas a maior parte foi causada pelos produtos Coky. Há três décadas, já se havia a suspeita disto, mas pensava-se que teria os mesmos males da bebida. Não se pensava que haveria uma mutação em nosso organismo provocado pelos anos tomando tais produtos. Os espermatozóides sempre foram afetados pelo HUG, que é como chamamos este combinado que nos provoca tantos males. Mas após a escassez de água e a massificação de produtos HUG, os espermatozóides comeram a passar defeitos geneticamente. Sabemos que esta é a segunda geração com o defeito. E afirmamos que todos que beberam mais de uma vez ,seja somente duas vezes, algum dos produtos, desde a crise aquática, terá somente uma expectativa de vida de quarenta anos de idade. E as próximas gerações terão sempre um pouco mais que a metade que isto. Em qualquer relacionamento sexual feito com alguém que tenha tomado mais de duas doses, em sentirem o suor, ou beberem algum liquido gerado da urina deste, também estarão contaminados.
Seguiu-se muito mais explicações do que seria, mas neste momento as televisões estavam ligadas e as pessoas não mais. O pânico tomara conta de uma civilização toda. Todos já tinham uma data de morte. Pouquíssimos teriam somente um pouco mais de tempo, provavelmente. Talvez, se houvesse alguém que não tivesse tomado água, quero dizer, produtos Coky ou similares, viveria. Mas não havia mais água potável, sem ter passado pelo processo HGB para tornar-se potável.
O mundo ficou estático.
Parado.
Chorando.
Desespero e estado de sítio em vários países.
Até que, meia hora depois do fim do pronunciamento, que foi cortado por falta de satélites disponíveis para a transmissão (maldita tecnologia), a equipe de marketing da empresa, colocara em todos os canais uma
propaganda:
-Curta Coky até o fim. Não tenha medo.
Algumas pessoas demoraram um pouco para pegarem a mensagem subliminar no anúncio, mas a maioria acabou seguindo o que eles planejavam.
Medo da morte?
Por que?
Em uma reunião extraordinária na Inglaterra, os parlamentares mundiais decidiram cortar as leis contra drogas e bebidas. Decidiram somente manter as leis que os protegiam e algumas leis contra roubos. Os satélites que estiveram preparados por mais de um século apontados para os principais focos de drogas foram redirecionados para os pontos de rebelião terrorista.
Acionaram o botão. Em tr6es horas, sete lugares foram retirados do mapa, com uma perda de sete milhões de pessoas.
Qual o problema?
Brindaram com Champagne. Drogaram-se sem vergonha e comeram e estupraram todas as pessoas possíveis do parlamento, incluindo umas a outras.
O estado de sítio também não durou muito tempo. Mesmo sem saber das novas leis, os poucos policiais nas ruas já não estavam prendendo ninguém por estupro ou drogas. Ao contrário, muitos até participavam. Só não aceitavam os assaltos. Estes eram executados no ato. Alguns pediam misericórdia, e a resposta mais usada era : “É exatamente isto que estou tendo, meu irmão.”.
Nunca uma madrugada fora tão turbulenta desde a última grande guerra.
Pessoas reunidas em muitos lugares espirituais, mas a maior parte dos embaixadores religiosos não estavam, pelo menos no Ocidente.

Alex entrou em um pub em Liverpool. DeMaxx dava um show ao vivo tocando grandes clássicos de fim do mundo, como Bomb-T-Bomb e DeathAfterLifez. A massa na pista não dançava, se aglutinava. Já havia visto filmes eróticos com cenas de orgias, mas aquilo era mais um desespero orgásmico. Haviam dedões de pé em cus alheios, para não perder nenhuma sensação ou experimentação.
Evitou aquele tumulto e foi para seu adorado balcão, pensar na vida e no filho que sua mulher acabara de forçar o aborto. Não sabia exatamente o que pensar, só sabia que tinha que pensar e estar longe dela. Sentou-se ao lado de um homem que parecia estar de batina. O balconista colava um cartaz onde duas mulheres abraçadas estavam ao lado do novo Slogan da Coky.
-Vê uma Lofg, por favor. – pediu.- Que foda, hein, amigo? – disse, cutucando o homem ao lado.
-Vá se fuder, sua bicha!- respondeu um padre cheirado e enrabado, com uma caneca de um litro de Lofg na mão.- Você achava que isso não ia acontecer cedo ou tarde? Nosso Deus não é um cara lá muito legal. Pelo menos o lá do Oriente era mais legal com eles.
-Mas não são todos iguais? Não existe um só Deus visto de maneiras diferentes? – perguntou Alex, sem acreditar ainda em tudo que acontecia.
-cara, talvez eles lá tenham um Deus, a gente nunca teve, porra. Você quer saber mais de Deus do que um padre, caralho!
-Mas…
-Mas o teu cu….-e o padre virou-se para examinar o cu do rapaz- hmm.
Gostoso. Mas voltando, você acreditava em metade do que leu? Em metade do que escutava? Não é a toa que você vai morrer, babaca. A maior parte era invenção pressa cambada de otário não saber que os livros tinham sido presos por não dar esperança. A gente sempre soube do poder do medo. Ah, se existe um Deus ele nos ensinou isso…
-Porra, então por que existe a religião, padre? Por que você foi seguir o que….
-Cala a boca. Você quer meter ou levar?

No meio de uma cerimônia hindu , um grupo de cinqüenta pessoas estrangeiras e descrentes entrou, estuprou, matou e se suicidou de remorso depois.

Pedro tinha somente cinco anos. Não tinha entendido tudo o que vira na tevê.
Seu pai foi até seu quarto e levou-o até o segundo andar da casa. Ligou o home theater e mostrou uma gravação rara para ele. Fora um dos participantes do primeiro contato humano com animais. Muitos não haviam entendido nada. Um belo grupo de botos cor de rosa estava no vídeo, numa caverna em Fernando de Noronha. Os animais estavam cheios de captadores presos em seu corpo. A mensagem mais conexa recebida dizia antes…ir junto..não meta…medo…salva…acabou…não daqui…de longe…erro.
O pai colocou a cabe entre as pernas e desatou a chorar como quase toda a população fizera. Era tão óbvio assim? Será que é por isso que ninguém podia saber? Seu filho ficou com pena do pai e foi a cozinha pegar uma Coky para ele. Enxugou as lágrimas e foi colocar o filho para dormir.

Onde foi que erramos?
Onde foi que tudo se perdeu? – se perguntava Antunes filho, junto de seu marido, fumando um Malboro e tomando um conhaque.
Medo. Tudo dependia do medo. Como chegou-se ao ponto de com uma frase mais de metade da população perder o caminho? A Natureza ia achar um caminho.
Sempre achava.
Mas isso vem de muito tempo, disse Lucio. As cidades foram criadas por medo dos outros. A sociedade foi criada por isso, e não pela razão. A inconsciência coletiva era a culpada.
Não. A inconsciência coletiva nunca foi muito consciente de seus atos, respondeu. Se nós tivéssemos medo, não seríamos um casal. Afinal de contas, somos aberrações. Vamos contra a razão humana.
E qual é? Reproduçao? Pra que?
Manter a espécie… Pra que? Por que?

Me abraça, por favor.

Em Madripoor, Albert pensava em seu tataravô. Pensava em sua família.
Nunca
tivera que pensar, só continuar os negócios. E ir a festas e inaugurações, além de freqüentes assinaturas em contratos. Lembrou que o ser humano era feito de água. Como podiam brincar com isso? Onde esteve com a cabe o tempo todo.
Lembrou do lucro que estava tendo nesta noite. Ia ser o maior milionário da história. Talvez, da raça humana. Tinha feito o que era para ser feito. Se não fosse ele, ia ser o seu filho.
Por que não testaram antes? Por lucro? Alguém ia acabar encontrando a cura, e suas vendas iam continuar bem. Afinal, provocara uma revolução mundial em horas.
Mas não podia ter medo.
Não havia mais espaço para o medo. Seu pai sempre falou que sua família tinha uma tradição: sem medo de fazer o que deve. Senão será somente mais um no mundo.
Sem medo.

::Caim::

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Fly Me to The Moon

8, fevereiro, 2002 Paulo Marinho Sem comentários

:: CHInewsKI Online – Edição nº 40 – Rio de Janeiro, 8 de Fevereiro de
2002::
Fly Me to The Moon

Santos Dumont, nove e sete da manhã. A correria de um lado para o outro para a ponte aérea para São Paulo. Antonio ali com um chope na mão e um cigarro na outra. A bolsa no chão com cinzas de cigarro dando o tom grisalho.
Esperava o colega de trabalho para irem à sampa resolver problemas de um cliente. Eles não haviam entendido a propaganda feita por eles: Curta Coky até o fim. Não tenha medo. Iam ter que explicar as manifestações ambientalistas contra refrigerantes e explicar a logística do forçar o consumidor que ele é um covarde se não usar o produto.
Foi aí que ela bateu em seu ombro. “Ta cedo pra beber, né?”. Ele olhou para seus olhos nissei. Karla. Há quanto tempo. Desde o segundo período de faculdade, quando ela se transferira para uma particular e ele ficara no Fundão. Seu liso cabelo loiro continuava lindo, e parecia que tinha crescido mais que seu um metro e noventa. Não, era o salto alto. Alto não, mirante.
“Oi.”, ele respondeu, se levantando e dando um meio abraço. Ela puxou um cigarro de Bali e pediu uma Cuba Libre. Começaram a conversar. Ela estava indo para Sampa também, mas era para curtir a noite após o trabalho.
Acabara
com o namorado há um dia. Ele lembrava bem dele. Como o odiava. Sempre que eles brigavam, parecia que seria a hora deles acontecerem, mas antes que pudessem dar o passo final, ele ligava ou aparecia do nada. Lembrava da noite em claro no Arpoador, ele com seu ukulele ,ela com um violino e ambos com duas garrafas de vinho. Ela já em seu colo, falando de como queria encontrar alguém tão romântico como ele, ele se abaixando, e o sujeito apareceu do nada chorando. Mal ela sabia que ele falara para todos os amigos que comera ela naquela noite. Não sabia por que, mas parecia que estava se enganando, para conseguir se sentir menos arrependido e ferido.
Jorge chegou e a reconheceu. Nunca fora tão amigo dela, mas sabia das histórias que ele contava. Sempre que ele acabava com alguma namorada, parecia comparar a garota a ela. Lembrava que era passado, mas de uma forma ou de outra Antonio não a esquecia em seu subconsciente. Iam no mesmo vôo.
Fizeram o check in, ela com o copo de Cuba Libre na mão. Continuava com seu jeito desengonçado, sem parecer lidar com seu tamanho. Ainda não entendia porque ela abandonara a idéia de ser modelo. Não tinha bunda e tinha seios enormes, uma típica modelo moderna.
Entraram juntos, batendo papo e lembrando dos velhos tempos. Ela toda ora passava a mão em seu ombro, o que ele lembrava bem. Sempre ficara com cara de bunda nesta situação. Ela estava bem longe deles, perto da cabine do piloto, eles pelo meio. Jorge comentava com ele sobre o trabalho, mas ele olhava oniricamente para onde ela estava. Podia ver os cabelos dela brilhando com a luz do Sol que entrava pela janela. Seu colega tentava o convencer que nada mudara, mas o olhar deixara-o atônito.
Até que, enquanto a aeromoça dizia seu habituê, ela veio esbarrando sua bolsa na cabeça de todos e pedindo desculpas até eles. “Será que você ia querer trocar de lugar comigo?”, ela disse a Jorge, retornando o olhar para Antonio. “Só queria continuar a … matar as saudades.”, e sorriu como uma criança. Jorge virou-se para seu amigo, querendo ver se seria bom, mas a boca aberta tentando retornar o sorriso mas quase babando de felicidade o fez concluir que nada adiantaria. Levantou-se pedindo juízo para as crianças.
O avião começou a trafegar na pista. Ambos pediram quase que juntos um uísque para uma aeromoça. Riram ao verem que, se já não bastasse todas as semelhanças, ainda tinham esta de tomarem uma bebida na decolagem e aterrisagem do avião, fosse mesmo uma distância pequena. Ela continuava com seu fascínio pela poesia romântica e desenhos góticos, o que a fez ir trabalhar com uma editora de revistas em quadrinhos de artes. Parecia estar indo muito bem. Afinal, não se chega a gerente de contas de uma revista facilmente, ainda por cima uma que é a sua favorita, Sandman. Ela não conseguiu parar de rir ao Antonio contar sua aventura ao chegar a ser um supervisor de marketing de um site de terceira idade. E a cada sorriso, eles se soltavam mais.
Quando começaram a avistar São Paulo, ele falou para ela de sua queda sentimental na faculdade. Ela respondeu que se ele tivesse dado uma palavra sobre isso, ela seria dele na hora. O piloto avisa da aterrisagem. Ele riu dela e ela com o rosto sério e emocionado olhando em sua alma. Ambos pediram juntos mais uns uísques.
Silêncio até a descida.
Desceram do avião se esbarrando, com um claro clima tendo e feliz. Ambos adoraram saber da recíproca, mas sabiam que uma pergunta estava
implícita: e
se fosse agora?
Pegaram as malas e tentavam se despedir. Antonio resolveu perguntar, já que ela trabalharia perto deles, se ela sabia se havia um restaurante legal por ali (como se ele já não soubesse). Jorge cortou na hora “Porque você não a chama logo, porra? Vocês parecem dois adolescentes saindo pela primeira vez!”. Ambos riram exatamente como dois púberes cheios de hormônios, mas na verdade era medo. Trocaram o telefone celular. Ela escreveu Tommy. Ela lembrava do apelido íntimo dos dois. Só ela o chamara assim em toda a vida, e ela sabia o quanto ele adorava e queria isso.
Saíram do aeroporto e resolveram rachar o táxi. Ela desceu primeiro, a cinco quadras de onde eles ficariam, na Pinheiros. Ele virou-se para olha-la como uma criança indo embora da casa de um amigo de infância, e ela também estática o vendo sumir.
-Cara, você não está saindo com a Melissa?- disse Jorge.
-Eu sei, mas isso é um milagre!- disse animadamente Antonio.
-Hm?
-Você já pensou se você pudesse voltar atrás e consertar um erro, algo que você achava que devia ter feito ou não devia ter feito? Isso acaba de me acontecer.
-Não sei, cara. Às vezes eu acho que o que acontece era pra acontecer.
-Mas isso é um milagre! E desta vez eu tive todos os sinais!
-Cara, deixa isso pra lá, chupa uma bala pra tirar este teu bafo…você não ta bêbado não, né?
-Não. – disse, pegando e preenchendo o voucher. – Só…feliz.
Antonio ligou logo que chegou para Melissa, dizendo que teria que ficar até a manhã seguinte, para resolver o problema. Ela estranhou, afinal quem tem que resolver problemas Sábado de manhã? Ele passou uma conversa e convenceu-a.
Depois da reunião com a equipe de marketing da empresa, Jorge comentou :
“Você devia beber mais vezes antes de reuniões.”. Não foi a toa. Ele ficara calado, só escutando Antonio convencer velhos gerentes de que estava tudo devidamente pensado e bem elaborado. Saíram da reunião com a certeza de que o contrato ia ser renovado e a empresa duraria mais, apesar de andar mal das pernas.
Deram umas voltas em uma galeria, até que Antonio de fora de uma loja, escondido em uma prateleira, um álbum que embalara seus encontros com Karla.
Entrou e comprou para presente. Recebeu a ligação, ambos sem graça.
Marcaram
ali mesmo na galeria, num McDonald’s.
Não demorou nem dez minutos para que ela chegasse esbaforida. Ele brincou de comerem num fast food, se era para apresentar isso ele já conhecia.
Pediram
ambos o número quatro com molho barbecue. Sentaram-se um ao lado do outro, com poucas palavras trocadas. O queixo de Karla se sujou ao comer uma batata e ele fora limpar com o dedo. Ela olhara ele nos olhos e ele pegou o presente. “Para lembrar dos velhos tempos”. Ela abriu. Portishead, Dummy.
Abraçou-o e lhe deu um beijo. “O que te fez demorar tanto?”, ele perguntou durante o beijo. “Estava perdida em um caminho da vida”, ela respondeu sem parar de o beijar.
E ficaram, e ficaram, e ficaram. Comeram um sanduíche frio, dando batatas um na boca do outro, com um sorriso de felicidade enorme na boca. Não viam o taiê e o terno um do outro, viam-se como se lembravam. Como achavam que devia ter acontecido. Deram uma volta na galeria de mãos dadas. Já tinham feito isto, mas não como agora. Agora podiam assumir o porquê da mão que não queriam antes assumir.
Tiveram que se despedir, a reunião dela começava as duas e meia. Foram andando pelas ruas esbarrando em várias pessoas, sem tirar os olhos um do outro, sem quase trocarem palavras. Alguns gritavam para olhar por onde andam, outros suspiravam ao ver a cena.
Até as cinco da tarde, ficaram se ligando de quinze em quinze minutos.
Ambos
foram brilhantes em suas reuniões. Jorge até conseguira marcar uma reunião com o representante da multinacional, querendo levar a propaganda para fora da Internet. Mas pediu para Antonio beber e se apaixonar antes da reunião.
Antonio deixou-o no aeroporto.
-Você tem certeza do que está fazendo?
-Nunca tive tanta certeza na minha vida.
-Boa sorte. – disse, dando um abraço forte no amigo como nunca dera. – Acho que vai precisar. Qualquer coisa, me liga, a menos que eu esteja com duas gêmeas de dezesseis anos na cama.
-Babaca. – respondeu Antonio, indo para um orelhão.
Marcaram na porta do hotel onde ela ficaria. Foram para o restaurante de mãos dadas. Ela o chamando de Tommy, que estranhava como parecia que estiveram juntos por anos. E de certa forma estiveram.
Tomaram alguns drinques, bateram um pouco de papo, mas ficaram mais se beijando. Após o terceiro Martini, ele falou que tinha que pegar um quarto.
Ela disse que era melhor irem para o dela. Correram pelo corredor e subiram se amassando no elevador entre executivos que estranhavam duas pessoas que aparentavam ser mais que púberes assim, mas invejando-os por isso.
Direto para a cama. E por lá ficaram boas duas horas. As melhores horas de sexo da vida de ambos. Ela fora pegar um baseado na mala. Ele odiava isso, mas no estado em que estava, não iria reclamar. Nunca gostara deste lado dela.
Olharam para o chão e viram que a cal e a camisa dele estavam totalmente rasgadas. Ela riu, falando que seria bem legal sair com ele só com o blaiser, bem sexy, mas decidiu descer para comprar algo para ele.
Logo que ela saiu, ele ligou para Melissa. Ela estranhara-o falando baixo, ríspido e seco, mas acreditara nele. Estava amando, e ele sem se importar nem um pouco com ela. Reencontrara o amor de sua vida, e nada se colocaria no caminho.
Karla voltara rápido, com uma camisa florida e uma bermuda. Ele se segurou ao máximo para não xinga-la, especialmente quando ele riu disso. “Eu sei que você odeia, mas agora não tem escolha. E sempre quis te ver assim.”.
“Então
vem por.”, ele disse.
Mais uma hora. Conversaram bastante depois, e ela o fez dar um trago em seu baseado. Ficara alto muito rápido. Acabara falando que estava namorando. Ela também revelara que só tinha tido uma briga com seu namorado.
Então, o desafiara. Desafiara a acabarem os relacionamentos e entrarem de cabeça nisso. Tommy não pensou duas vezes, pegou o telefone,e acabou, quase que literalmente, com Melissa. Ela chorava em prantos do outro lado, mas ele olhava para a mulher em sua frente, mandava beijos, e continuava.
Desligara
na cara e desligara seu celular. Karla fizera o mesmo, mas muito mais sutilmente. Parecia que sue namorado não se importava. E bateu o telefone.
Ele correra para seus braços, mas ela se esguiara e fora para sua mala, pegar um vestido preto bem curto e brilhante. “E então, vamos comemorar?”.
Ele foi tentar agarra-la de novo, mas ela saira.”Não, é sério. Vamos dançar e comemorar.”. Apesar de uma voz dentro dele se preparar para berrar, ele foi hipnoticamente, com a bermuda e a camisa florida.
Forma parar em um bar GLS. Ele, sem o costume de dançar algo que não fosse rock, ficara no passinho prum lado, passinho para o outro. E ela se acabando na pista. Ele resolvera tomar um drinque para relaxar. Um gay gringo passara a mão em sua bunda e falara algo em alemão, talvez. Ele saiu com duas bebidas correndo voltar para ela.
E lá estava ela.
Com um negrão rondo em sua bunda e uma mulher esfregando o rosto em todo o seu corpo, com uma maquiagem que só o fazia lembrar-se de Robert Smith ou do Corvo.
Estático.
Ela puxou-o para o meio.
Estático. Lembranças vindo.
Karla pôs ele se roçando na mulher e puxou a mão do negrão para sua bunda. O negrão esticou o pescoço e riu para Tommy.
Dinâmico.
Tacou um copo no chão. Virou outro. Arrancou o braço de sua bunda e jogou a mulher no chão.
Lembranças.
Ataque de raiva. Fulminante. Cento e oitenta batidas por minuto. Falava coisas que nem sabia do que eram, mas sabia que ofendia. Como sempre foi.
Carreira de modelo. A necessidade de se sentir-se sedutora para toda e qualquer pessoa. Jogos de ciúme o usando com o namorado.
Ele calou-se com um tapa. “Cala a boca, to caindo fora.”, ela disse.
Ele ficou parado um minuto e depois saiu correndo atrás dela. Tentava agarra-la, mas ela fugia.
Todos os poemas que fizeram juntos. As madrugadas bebendo e vendo teve ate o sol raiar. O Sol raiar no Arpoador.
Jogou-se em seus pés, abrindo um clarão na boate. Ela rindo sem graça, sem saber como tirar a mão dele de seu antebraço.
O rosto dela ao sair com sue namorado do Arpoador, cochichando em seu ouvido e depois ambos olhando para ela.
O olhar.
O jogo de ciúmes.
O sorriso maquiavélico e sedutor.
“Você me conhecia. Por que faz isso?”
O sorriso.
Ele soltou.
Ela foi embora. Ele ficou ali de joelhos. Por alguns bons minutos. Viu a histórias dos dois passando como dizem que ávida de alguém passa em sua morte. E voltou para o bar. E nem ligou para nenhuma mão na bunda nem mulher se rondo. Só queria beber.

Voltou para o hotel. A pé. Algumas pessoas riam de sua roupa na rua.
Ele não
ligava. Só queria fumar e voltar pra casa.
Sua mala estava na recepção. Tinha um bilhete dentro. Desculpe por tudo, asm saiba que fui sincera. Segui meus sentimentos.
“Eu também.”. Pensou. Eu também.
Foi para o aeroporto. Nenhum vo6o devido a chuva até as sete de manhã.
Resolveu ir pra Rodoviária. Arranjou um lugar em quarenta minutos. Foi para uma lanchonete e pediu uma cacha.
Porra, só queria ir pra casa…casa…
Ligou o celular e ligou para Melissa. Discutiram um pouco, mas ela não o queria de volta. Não aceitou o que houve. Ele cortara a paixão pela raiz.
Chifre. E insensibilidade.
Ligou para Jorge.
-Sorte sua cara, não encontrei nenhuma adolescente. – dizia de algum bar com música ao vivo.
-Há há – disse um desanimado Antonio, que deixara Tommy em São Paulo -Deu merda, né?
-Deu…
-Te falei, certas coisas não são pra acontecer. Passou do ponto. A vida sabe o que…
-Posso ficar na sua casa por um tempo?
-Pode. Me encontra no Empório.

::Tommy Molto::

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Morro dos Ventos Uivantes

8, fevereiro, 2002 Paulo Marinho Sem comentários

:: CHInewsKI Online – Edição nº 40 – Rio de Janeiro, 8 de Fevereiro de
2002::

Morro dos Ventos Uivantes

Por onde esteve?
Por onde andou?
Trouxe alguma lembrancinha?
Ah, trouxe …Sim trouxe, o seu olhar
Como foi? Foi bom? Legal?
E a vida? Encontrou ela na esquina? Não chegou a tempo?
Não entendeu seus latidos?
É fácil, como a fala de uma criança.
Um dia já soubemos, mas normalmente perdemos…
Nos perdemos?
Perdão, nos conhecemos?
Prazer, Caim.
Nem te contei onde estive.
Conheci muita gente que sei que gostaria.
Algumas falaram bem de você.
Eu vi o fundo, é, o fundo do mundo,
Sabe que não foi ruim? Foi péssimo, mas na hora.
Às vezes acho que ainda estou lá.
Mas só se sabe o que é bom após conhecer o ruim.
“Só se sabe o doce quando se prova o salgado.”

Lembra daquele jeito meio esquisitão? Piorou.
Agora sou Caim.
Serve como me conhece, homem cinza,
Só não fala pra muita gente.
Não, não tenho síndrome do pânico,
Mas aprendi a ver as almas.
Que horrível. Mas que horrível!
Estamos podres… sempre estivemos?

Acho que não te contei, mas aprendi
Aprendi que só existe uma coisa
UMA coisa no mundo
Que te dá motivo de viver, e viver bem.
Pena que poucos sabem disso…
Quer que te diga qual é?
Não posso, é seu e só seu.
Até achei que sabia, mas não sei.
Acho que nos perdemos, sabe?
Mas acho que sei o meu.
E acho que também e o seu.

Já sabe, ando escrevendo.
Lembra, sabe que te fiz uma música?
Pois é, foi no dia em que te conheci.
Toquei pra você e nem se se percebeu.
Foi por ela que cheguei e conheci…
Sim, ele mesmo, não é só para rimar.
Morpheu.
Ele falou para te avisar para sair de suas terras As vezes, pelo menos.
E ver o chão sobre vossas asas.

No dia em que morri
Não lembrei de você
E isso fez toda a diferença.
Todos tem segundas e terceiras chances.
É só pegá-las.
Bem , cá estou.

Uma menina ficou muito tempo em seu quarto E leu todas as histórias do mundo Ao sair das folhas, percorreu-o Ou deseja todo Mas sempre volta as folhas Aos sonhos Só não perca o chão.

Cadê nossos vinhos?
Nossos violões?
Nossa música?
Passamos bons bocados
Já fazem… muitos anos!
Mas ,para mim,
Foram momentos eternos
Ternos
Belos

Envelhecemos mas não crescemos
Meu pé ainda é 40
E ainda lembro do seu sorriso
E de seu olhar
Aonde você mora? Aonde você foi morar?
Quando o mundo girou e eu fiquei
Em meu mesmo lugar?
Acho que foi quando morri
Você leu sobre minha morte?
Saiu em alguns folhetins
Mas voltei

Você também foi linda
É linda, creio eu
Ainda não vi sua alma
Mas prometo vê-la
Seja em breve
Pois anos já se foram
E passarão de novo em um suspiro

Qual o por que?
Quem vai saber?
Ninguém.
Mas certas marcas d’alma
Nunca se apagam
E tenho uma marca
Com sua forma
Mas ela andava vazia
Espero que não mais…
Não mais…

::Caim::

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Zap TV

1, fevereiro, 2002 Paulo Marinho Sem comentários

:: CHInewsKI Online – Edição nº 39 – Rio de Janeiro, 1 de Fevereiro de
2002::

Zap TV

Laila saiu do trabalho. Ficou numa esquina da rua do Ouvidor onde havia movimento, onde sempre esperava seu namorado a buscar. Hoje iriam comemorar um ano de casados. O relacionamento não era tudo que esperava, mas o amava e por isso aceitava tudo que fazia, inclusive seus eternos atrasos para busca-la. Sempre dizia que era trabalho, mas ela sentia o cheiro de bebida e o perfume barato nele. Nem podia tomar um chope com as amigas da loja, porque ele a vira uma vez fazendo isso e os hematomas demoraram uma semana para ficarem menos óbvios em seu rosto e coxas.
Trim.
-Alô.
-Oi , amor? Tudo bem?
-Ta tudo bem. Você vai demorar muito para chegar?
-Olha, amor, minha mãe teve um problema e vou leva-la ao hospital agora.
Pega um táxi e se encontra com a gente no hospital.
-Mas hoje é nosso aniversário de….
-Porra, é minha mãe, caralho! O que você acha que eu tava fazendo? Comendo uma puta? Vai lá, te espero no Quinta’Dor.
-Tá, desculpa, eu só queria….
-Tá bom, porra. Eu chamei um táxi pra você já, ele deve estar chegando por aí agora. Isso é pra você não dizer que não penso em você.
-Brigado, amor.
-Ta bom, peraí, minha mãe ta gemendo de dor. Tchau, a gente se vê la.
Desligou.
Guardou um dinheiro no sutiã. O lugar era movimentado, mas não de todo seguro. Preferiu prevenir. Estava com cheiro de chuva, devia estar chovendo por perto.
O táxi chegou.
-Laila? – disse o motorista, abaixando o vidro fume.
-É.
-Pode entrar.
Um carro grande, não sabia qual, nunca entendeu muito disso. Entrou. O motorista era bem mal encarado, com uma barba por fazer e de boné. Era raro ver isso, um boné bem sujo e furado. Ele deu uma arrancada forte, correndo logo de saída uns cem quilômetros por hora, cortando todos os sinais fechados.
-Você ta indo rápido demais. – ela disse, segurando forte o assento.
-Ninguém te diz como fazer seu trabalho, então não diga como fazer o meu. – respondeu olhando pelo espelho.
Ele quase deu um cavalo de pau ao dobrar na praça Tiradentes. Mas aí finalmente parou num sinal, bem perto do acostamento. Ela viu uma cara feliz colada no vidro de trás batendo várias vezes. Pensou em si, como era aquilo.
Não podia agüentar mais isso. Tudo bem que sua mãe estivesse mal, mas se tivesse com cheiro de bebida, ia ver. Se bem que ra o aniversário… Tinha no vidro na frente, grudado perto dos adesivos de pedágio, um escrito :
Sorria, voce esta sendo filmado. Procurou uma câmera mas não conseguiu ver, Também, as ruas escuras e o vidro fume não ajudaram muito.
A porta ao seu lado se abriu rapidamente. Um cara encapuzado entrou e fechou a porta.
-Oi, jorjão. – disse o cara para o motorista.
-Fala, rapaz. Fez a festa. – perguntou o motorista se virando. Um clec ecoou. Eram as portas sendo travadas Por ele.
-A grana eu já peguei, mas a festa começa agora.
Ela inspirou fundo para berrar, quando o encapuzado tampou rapidamente sua boca.
-Cala a boca, vadia. Só to pegando uma carona pra casa, beleza?
Ela continuava tentando berrar.
-Se você quiser berrar, vou ter que usar a for e te deixar desmaiada. Você quer isso?
HMMMMMM HMMMMMMMMM
-Você QUER isso? – apertando sua boca.
Ela relaxou. Por pior que fosse a situação, só ia se sair bem se se acalmasse. Aprendeu isso em casa. E também aprendera que devia ficar calma, pois estas situações a excitavam.
Ele foi soltando sua boca até ser por completo e ver que ela realmente relaxara.
-Fica aí numa boa que vai ser bem melhor pra você, ok?
-…Tudo bem. – respondeu, ainda se segurando.
-Passa a grana que você tem aí.
Ela se afastou dele, com um rosto de criança protegendo o brinquedo que seus pais vão tomar sabendo que vai ser pego de um jeito ou de outro.
-Lembra o que eu te disse. – falou ele, chegando mais perto e segurando com força a sua perna.
Ela sentiu claramente um flúido sendo soltado por seu útero. MERDA MERDA MERDA. Passou a bolsa para ele e foi feita a colheita. Sorte que ele não viu o vibrador que ela guardava no fundo, numa pequena bolsa de nécessaire. As v ezes, usava isso para se masturbar com clientes que a atraiam, seja pela beleza ou pela delicadeza. Como sentia falta da delicadeza… mas esta for… a excitava.
-E aí, pra onde agora?
-Bem, o marido dela pediu para leva-la para o Quinta’Dor.
-Então, vamos passar por lá e fazer uam festinha antes, não?
-Yeah…-disse o motorista estendendo a mão para trás e batendo na do amigo, qure não afrouxava a mão na coxa dela, ao contrário ia subindo aos poucos, para o desespero dela.
O pior era que o cara estava lembrando seu marido. Já tinham brincado de algo assim algumas vezes. Bem, várias. Pra falar a verdade, quase sempre que ela chegava ao orgasmo. Não queria assumir que ra mulher de malandro, mas era assim que ela ficava nestas situaçòes. Lembrava de uma vez que houve um assalto em um ônibus em sua adolescência. Ficou pensando naquele homem rústico e armado por anos.
Chegaram na quinta da boa vista. O motorista parou e abriua janela. Ela sentia que devia fazer algo, mas não conseguia. Ficava ali. Somente ali.
O motorista voltou com uma mulher em seu lugar e um travesti que entrou do lado dela. Era agora, pensou. Forçou a perna para sair, mas a mão do encapuzado e a força do travesti, que a olhou de cabo a rabo e assoviou, impediram.
O carro saiu a toda. Uma mão no volante e uma mão na calça, desabotoando. A mulher foi ajuda-lo a tirar a calça.
Foi a primeira vez que o encapuzado tirou a mão de sua perna. Mas logo a mão do travesti foi chegando nela. Ela foi evitando.
-Quem é a vagabunda?- o travesti perguntou.
A mulher da frente chupava o motorista e ele urrava de prazer. O travesti chegara a mão perto da vagina dela. O encapuzado já estava com o pau para fora.
-Vai, me chupa. – disse para Laila.
Ela cuspiu na cara dele, apesar de estar excitada como não fazia a anos.
Pararam perto da entrada do Zoológico. O encapuzado, puto da vida, puxou uma trinta e oito e pos perto de sua boca.
-Chupa isto então pra treinar.
Laila começou a chorar. PUTA QUE PARIU COMO NÃO QUERIA ESTAR COM TESAO DISSO QUE NOJO EU SOU NOJENTA.
-Se você não começar em cinco segundos, vou te dar uma coronhada.
NÃO POSSO NÃO POSSO MEU MARIDO UM ANO HOJE A SUA MAE -Um PUTA QUE PARIU VOU CHUPAR UMA ARMA ESTE PORRA VAI ME MATAR E EU QUERO FUDER COM ELE -Dois.
O travesti chegou a mão bem perto de seus pentelhos e começou a alisar.
-Cara, eu continuo?- perguntou o travesti para o motorista, que também olhava atentamente pelo retrovisor, nervoso. Mas LAILA não percebia isso.
Mil e um opensamentos por segundo, a maior parte tão pornográfico que tentava esconder pensando em seu marido, mas acabava voltando. E a arma ali na sua freente. Cheiro de pólvora recente, ela sentia.
Ela meteu a boca no cano. Chupou. Chupou com vontade.
-Cara, ela caiu na …. – falou o sujeito armado, quando ela chegou a arma para o lado e começou a berrar.
PUTAQUEPARIU VOU FUDER ATE AMORTE
Meteu a boca no pau do armado e enfiou a mão do traveco em sua buceta.
Começou a chupar com uma vontade de nunca vira. Sua buceta parecia uma cachoeira de tanto gozo saindo. Ela era uma puta mesmo.
-Para com isso. PARA! – berrava o encapuzado, tirando o capuz. Ela não viu, estava chupando, berrando, afundando a mão do travesti em si, que comeva a esquecer de seu roteiro e se levar pela putaria.
Luzes se acenderam de fora. Sentira elas acendendo. A porta se abriu e o chupado saiu correndo, fechando o zíper. Viu câmeras fora do carro.
Reconhecia agora , era um ator??
Viu a camera. Viu o ator tirando um microfone.
Começara a desmaiar.
…telegrama legal…realizar seus sonhos…ver o lado sujo….
acordou no Quinta’Dor. Estava numa cama de emergência. O ator ao lado, gemendo de dor por uma mordida que levara no pau.
-Amor?
-….?
-Porra, o que você fez?
-Como assim? Eu estava no táxi e…
-Eu sei, eu fiz o roteiro com o pessoal da equipe. Porra, amor, era somente um telegrama legal.
-Que?
-Era um telegrama legal. Era o seu presente de….
Ela levantou e esmurrou o marido. Depois, bgeijou-o e chupou todo o sangue do dente quebrado com gosto.
-Voce não devia ter feito isso, seu filha da puta.
-Por que? – disse ele, ainda grogue e sendo visto com espanto pelos plantonistas.
-Você vai ver quando sairmos daqui.
-Por que? Você vai ir embora de casa?
-Nào. Hoje não vamos para casa. Hoje vamos barbarizar. E acho que vai gostar.
-Mas, amor, eu so tenho olh…..
-Cala a boca e vamos. Eu sei o que você quer, seu filha da puta. Eu também.

Este telegrama legal nunca foi levado para o ar. Foi substituído por mais um daqueles onde varias mulheres de lingeries preparam uma situação com alguém, seja fazendo vídeos eróticos ou ensaio para modelo, mas este realmente foi um presente para o casal. Inesquecível. Para eles e outros que conheceram depois.

::Caim::

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OS HOMENS SÃO UNS CANALHAS

1, fevereiro, 2002 Paulo Marinho Sem comentários

:: CHInewsKI Online – Edição nº 39 – Rio de Janeiro, 1 de Fevereiro de
2002::

OS HOMENS SÃO UNS CANALHAS

-Nós somos tão….idiotas….-disse ela, sentindo que poderia até chorar por jogar fora alguém como ele. Segurou seu queixo e olhou fundo nos olhos dela.
Sentiu tocando na alma. Seu cabelo pinicava em suas bochechas, mas ela gostava. Em seus olhos, havia uma sinceridade que raramente se via. Para falar a verdade, ela nunca vira algo assim.
-Mas todos temos uma chance, o negócio é pegá-la. – disse ele, ainda olhando sua alma.
Seu cotovelo jogou a bebida na cal dele, mas nenhum deles se importou, foi o beijo. Saíram correndo para o apartamento dela e fizeram amor a noite toda.
Amor. Nunca vira um homem tão carinhoso na cama. Dormiu carinhosamente em seu colo.
Ao acordar, viu que ele já havia ido. E que havia levado algumas cosias suas, caras. Correu pela casa. Bolsa, dinheiro, relógio. Uma carta em cima da mesa.
“O pagamento por uma noite inesquecível e uma história que você nunca esquecerá. Do homem que você nunca soube o nome, para a mulher que saberá o nome de quem amará.”
Não chorou nem teve raiva. Fechou os olhos na mesa da cozinha e pensou na história que ele tinha montado. Um bom valor pago por um sonho tão bom. Só faltava faze-lo.

Bukowski. Little Black is Fuck. Noite vazia, provavelmente a noticia da volta do bar ainda não circulou o Rio de Janeiro. No andar de baixo, várias patricinhas vendo fotos de viagem ao som de Bob Marley. No andar de cima, três casais nitidamente se preparando para uma noite de swing dançam revezando-se na pista. No bar, os barmen conversam tranqüilamente sobre algo.
No sofá, um homem sentado sozinho, fumando seu cigarro, tomando um copo cheio de vodka. Seu visual na hora bateu Jackie. Cabelos longos e secos, uma barba bastante volumosa (como adorava roçar uma barba em suas costas) e uma roupa com a mais absoluta cara de pijama, uma camisa xadrez de flanela gasta e uma bermuda com uma mancha de café.
Sentou-se ao seu lado, mas ele olhava atentamente a fumaça de seu cigarro subindo. Malboro, este é homem mesmo, pensou. Colocou seu copo bem perto do dele. Nada. Esbarrou sua perna na dele algumas vezes. Nada. Quando ensaiava uma frase sobre a potencia do ar condicionado, ele levantara-se.
Entrara na
pista. Ao segui-lo, pegou-o falando com o dj, que imediatamente colocou sua música. Portishead. Wandering Star.
Ele parou num canto da pista, escutando a musica fascinado. Seus olhos eram lindos. Um verde claro escondido entre as mechas de cabelo castanho que escorriam pelo rosto. Ela o queria. Foi direta desta vez. Chegou do lado dele.
-Você quer dançar?
Ele fitou-a de cabo ao belo rabo e fitou seu rosto.
-Voce vai me machucar. – e pegou um cigarro para acender.
Estática, ficou ali olhando para ele, estudando-º Sujeitinho fascinante este. Deve estar fazendo jogo.

AS MULHERES ESPERAM O PRINCIPE ENCANTADO

-Nós somos tão….idiotas….-disse ela, sentindo que poderia até chorar por jogar fora alguém como ele. Segurou seu queixo e olhou fundo nos olhos dela.
Sentiu tocando na alma. Seu cabelo pinicava em suas bochechas, mas ela gostava. Em seus olhos, havia uma sinceridade que raramente se via. Para falar a verdade, ela nunca vira algo assim.
-Mas todos temos uma chance, o negócio é pegá-la. – disse ele, ainda olhando sua alma.
Seu cotovelo jogou a bebida na cal dele, mas nenhum deles se importou, foi o beijo. Saíram correndo para o apartamento dela e fizeram amor a noite toda.
Amor. Nunca vira um homem tão carinhoso na cama. Dormiu carinhosamente em seu colo.
E nunca mais dormiu em outro lugar, nem comprara mais nenhum Lui Vitton.

Mas não. Ela continuou insistindo e viu que ele realmente não estava fazendo nenhum tipo de jogo. Ele realmente não queria se machucar, tinha sentido que ela era daquelas mulheres descartaveis, ou no mínimo que descartavam os homens. Cansada, resolveu sair da pista e foi-se sentar na mesa de bar. Ele voltou após suas músicas pedidas, para seu lugar no sofá. E ficou a olhando atentamente. Ela sentia. Estava sendo comida pelos olhos. Mas ele sempre desviava o olhar ao sentir-se observado.
Ele foi para seu lado.
-Melhor você sasir de perto. Eu posso te machucar. – disse ela, acendendo seu cigarro de Bali com um rosto sério. Ele sorriu, ela retribuiu.
-Posso te provar que eu não estava brincando? – disse ele, fazendo uma concha com suas mãos e colocando a fumaça dentro.
-Você quer ficar comigo? – ela perguntou, já se excitando com a situação.
-Não. Sempre achei que isto é para quem não tem isso. – e abriu aos poucos sua mão, fazendo com que a fumaça saísse com um perfeito formato de coração, chamando a atenção até do garçon. – E, quando tem, como é o meu caso, acontece, isto. – e mostrou para ela o coração se desfazendo com o espalhar da fumaça.
-Então não entendi nada.
-O que você quer de mim? Sexo por uma noite? Um caso rápido?
-Não sei. Sexo? Não, claro que não – respondeu cinicamente, tentando tirar a imagem daquela barba roçando em suas costas enquanto a comia por detrás.
-Então queria te mostrar o que aconteceria, porque gostei de você mesmo, não sei porquê.
-Como assim? Ainda não entendi lhufas.
-Vamos conversar sobre a nossa história, o que aconteceria a partir de hoje, se nós acabássemos ficando aqui. Você quer ver? É interessante, acho que vai te interessar.
-Vamos! – disse ela, achando que poderia provar para ele que não seria nada disto.
Ele começou, imaginando que cedeu a ela um beijo na pista ainda. Ela falou que dançariam grudado a noite toda. Ele falou que preferiria ficar papeando e bebendo no sofá, se conhecendo melhor, e se devorando com olhares provocantes, seguidos de beijos e carícias.
Disse que escutaria cada palavra que ela falaria, e discutiria com ela sobre a filosofia de Sócrates até seriados de tevê. Ela disse que estaria fascinada e que ele estaria no comando. Eu sei, respondeu, e eu te levaria para o Arpoador, para bebermos e transarmos até o amanhecer ou até algum turista chegar. Ela disse que ia ser ótimo. Ele complementou que se recusaria a fazer sexo sem explorar e admirar cada poro dela. O garçon fingia que lavava alguns copos, mas não tirava os ouvidos da história.
Ela,
só de imagina-lo explorando ela toda, já ficara completamente molhada e entrara de vez na história.
Ela falou que mal conseguiria trabalhar. Ia aproveitar que o dia seguinte era sexta, o dia em que menos trabalhava, para ficar-lhe ligando. Ele respondeu que seria difícil, porque ele lecionava aulas de literatura num curso de pré-vestibular. Mas à noite, ambos se encontrariam no mesmo lugar e iam brincar de que estavam se conhecendo de novo. Ela disse que teria preparado todo seu apartamento com velas aromáticas e passariam a noite assim.
Estupefato, ele disse que acharia que estava descobrindo, finalmente, alguém como ele. Ela ficaria fascinada pelas palavras dele, e estaria apaixonada, mas se faria de difícil. Ela disse que não. O garçon, reconhecendo a cliente, deu uma certa risada, que ambos perceberam. Fingiu que era com alguém atrás deles (tudo bem que não havia ninguém). Ela consertou, achou que talvez fizesse o tipinho.
Tudo bem, vamos desconsiderar esta possibilidade, embora eu a ache provável, disse o barbado. Ela se entregaria a ele, falaria que nunca havia sentido algo assim, alguém que a escutasse tanto, e fosse uma flecha tão fulminante no coração. Ela emendou falando que o levaria para os melhores lugares, os melhores programas. Ele disse que toparia por uma semana, mas logo após teriam uma conversa sobre futilidades da vida, que tudo isso nada mais era do que uma supressão da carência que todos tem. Que queria que ela entrasse de cabeça nisso. Você faria isto?, perguntou.
Ela disse sim, começando a achar que era um destes filósofos que tentavam viver utopias dos grandes nomes. O garcon segurou o mais que pode o riso com a aceitação dela. Porra, ela sempre aparecia com uma bolsa nova cada semana, pensou. O cabeludo também fez uma cara de incrédulo, mas continuou levando o falso romance. Falou que na segunda semana ela levaria isto numa boa, e começaria a tentar se desligar do material e viver a vida e o amor. Mas a partir da terceira semana, as pessoas com quem se relacionava, pais, amigos, iam começar a critica-la, a estranha-la. Por mais que não se fale, isto vai abalando a relação. E as ligações de hora em hora agora não seriam mais tão bem vindas. Os presentes que receberia todo dia em seu trabalho começariam a virar uma tranqueira em sua mesa, o que faria você começar a achar que era um maluco, um obcecado, algo do estilo.
-Nunca! – disse ela.
-Não, isto eu sei que não. – continuou, pedindo mais uma vodka para o garçom fascinado pela história. – Eu conheço o suficiente a alma feminina. Vocês sempre falam deste romantismo, que adoram, e realmente adoram. As vezes.
Quando ele se torna constante, da no saco de voces. Você já não estaria com jeito de falar comigo ao telefone, começando a me dispensar, dizendo que esta acumulada de trabalho, ou algo assim. Não conseguiria mais se fascinar pela minha simplicidade, estaria cansada de meus poemas e de minhas admirações por você. Começaria a querer fazer brincadeiras na cama, e eu somente querendo você como você é. Sua paixão ficaria em cheque.
-Tudo bem, mas poderíamos passar por cima. – disse ela, realmente sentindo-se na história.
-Não. Eu não mudaria meu jeito. Não vejo erro nisto que faço e sinto.
Continuaria. Algum dia, você veria alguém na rua e sentiria algo diferente.
E aí, uma hora ou outra, me diria que não dava pra continuar. Existem mil e uma maneiras: estando começando a duvidar que lidaria bem com isso o resto da vida, estando cansda mesmo disso, ter se interessado por outro, dizendo que acabou. Você sabe como é.
Um silêncio.
-Cheque mate. Acabaríamos, você choraria por uma semana eu por alguns anos ou para sempre. Pois sei que o amor verdadeiro não é substituível, e, se eu te amava, não poderia deixar o que sinto para trás como você.
Silencio.
-Voce vai fundo assim nas relações?
-Vou.
-Sempre? – diz ela, acabando seu chope.
-Claro.
-Por que?
-Porque eu sou o último romântico. Literalmente.
Ela ri com um canto da boca.
-É sério. Sou o último de uma linhagem de anos. Estamos acabando. Aqui no Brasil ainda agüentamos um pouco no interior, mas não por muito tempo.
Posso
não ser o ultimo, mas pelo menos, o ultimo do Brasil. Isto e passado de pai para filho. É um tipo de educação.
-…Sério?
-Sério.
Ela ficou olhando para ele, fascinada com a história, e fascinada por sentir que provavelmente era verdade.

A REALIDADE ANDA SURREAL

-Desculpa por tentar algo com você…- disse ela, sem graça por ver que queria banalizar alguém tão significante nos dias de hoje.
-De nada. Sabe, podia ter sido você.
-Jura?
-Juro. Sempre faço isto da história quando sinto que posso ter encontrado ela. Mas não. Até hoje não. Preciso encontrar uma mulher que entenda isto.
Para podermos recuperar nossa linhagem. Ou, pelo menos, manter o romantismo fora das folhas de papel ou de cantadas baratas de namorados.
-Boa sorte, disse ela, levantando a mão para ele cumprimentar.
-Obrigado. – ele respondeu, levantando-se e beijando sua mão.
Foi embora.
-Você sabe qual o nome dele? – perguntou ela ao garçom.
-Não faço a menor idéia. Nunca o vi aqui, mas juro que já o vi por outro lugar.
-Talvez em livros…
-Talvez. Só pode.
E ela voltou para a pista, agora com mais pretendentes para sua noite, mas com uma parte urrando para que nunca mais fizesse isto.

::Paulo Marinho::

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Sexo e Karate (na minha teve)

10, janeiro, 2002 Paulo Marinho Sem comentários

:: CHInewsKI Online – Edição nº 37 – Rio de Janeiro, 10 de janeiro de
2002::

Sexo e Karate (na minha teve)
Juliana saiu para levar seu irmão mais novo até a casa do avô. Assim eles teriam a casa toda pela noite só para eles. Ela deixou Jorge sozinho em sua casa. Antes de sair ainda brincou para ele não bisbilhotar em suas coisas para não perder o mistério.
E ele realmente nada fez. Sentou-se no computador e começou a navegar pela internet. Aproveitou também e pegou uma carta que tinha feito para ela, pela comemoração de um ano de namoro que fariam naquela noite. Não sabia ainda ao certo como começara. Ela era bem diferente dele. Até a maneira que se conheceram. Ele fora a Igreja forcado pelos pais, por estar todo dia ao voltar do trabalho bebendo sozinho em qualquer birosca de beira de esquina, e viu aquela mulher. Passou a freqüentar a Igreja mais vezes e até parou de fumar e reduziu a bebida para socialmente, seja lá o que isso for. Não demorou muito para, após uma briga entre ela e seu noivo (eles já moravam juntos), acabarem começando o romance.
Um telefone toca. Ela esquecera o celular na mesa de jantar. Ele correra para a sala e tropeçou cinematograficamente na beirada da cama, chutando uma caixa que estava debaixo. Mancou até o telefone e atendeu. “Oi, gostosinha, tá sumida, hein?”. Ele ficou mudo, sem saber o que falar. Depois, como sempre, seu sangue quente falou mais alto. “Que porra é essa de gatinha, filha da puta?”. “Hã, é 99989798?”.”E”.”A Ju não está não?”.”É Juliana, e não está. Quem e?”. “Eu ligo depois.”, e desligou. O cara ficou tão assustado que esqueceu até que aparece o numero do celular. Betinho-Home, dizia o display. Tacou o celular com raiva no sofá, tentando se acalmar, e voltou para o quarto.
Viu a caixa que topara bem na porta, entreaberta. Uma caixa de papelão cheia de colagens em volta. Fotos e desenhos bem de adolescência : Moranguinho, Tom Cruise, aqueles casais de namorados se beijando bem estilo Capricho, tatuagens, etc. A abertura estava bem virada para ele, como uma boca.
Parecia pedir para ser vista, tamanha a curiosidade.
Sentou-se na cama, tentou não pensar muito na caixa, mas ela parecia estar fazendo um jogo psicológico com ele. Resolveu abrí-la. Um diário de 93, duas fitas de câmeras portáteis e alguns álbuns de fotografias, daqueles que vem junto com as fotos reveladas. Tudo envolto por fita isolante. Também havia dois piercings.
“Abrir isso também já era demais.”, pensava. Mas o Gostosinha e Ju ecoavam em seu coração tantas vezes quanto suas batidas cardíacas. E ambos aceleravam. GostJusinhJuGostJuinhaGoJuInJuGJOJSTJU…..
Viu uma folhinha solta no fundo da caixa. Pegou-a e cheirou. Era uma folha de maconha. Revoltou-se.
Pegou um dos álbuns de fotografias e abriu. Parecia que iria ocorrer algo de um filme de terror quando abri-se o álbum, tal como sair uma mão e o enforcar. Esta morrendo de medo, mas o ódio era maior. Algo o dizia para ter ódio. Viu. Era uma foto dela com um ex-namorado. Uffff. Folheou as fotos. O alívio que sentira no inicio voltava a ser ódio. Via os rostos deles nas fotos. Via uma felicidade exaurindo de seu sorriso que nunca vira nas melhores horas. Viu umas folhas entre as fotos. Pegou-as e viu que eram cartas de amor, bem guardadas. Se perguntava se ela guardaria assim a dele.
Começou a lembrar de tudo que ela já falara para ele sobre sua vida e de seu comeco de namoro. Lembrou de como fora incentivado a joga tudo de suas ex namoradas fora. Aquilo atrapalharia o relacionamento, ela dizia. Os sentimentos que vocês compartilhavam sempre será revivido ao ver as fotos.
Olhou para o álbum. Ele está limpo e com varias marcas de cola adesiva, como se sempre estivesse sendo visto.
Sentiu sua cara mais escura do que já era. Provavemente que passasse e o visse acharia que era um negro da favela que havia invadido a casa para assaltá-la, tamanha a expressão de ódio.
Abriu outro álbum. Este já era bem diferente. Eram fotografias tiradas na praia dela com uma amiga. Começa as duas abraçadas, tirando foto com o braço esticado. Logo no primeiro virar de paginas, já se vê um beijo daqueles onde se pensa que na verdade são siameses unidos pela boca. E daí vai piorando.
Poses sensuais na areia, uma fota dela chamando a outra para cima, deitada na areia. Ela!, pensava. Ela….a minha…. Fechou o álbum com chave de ouro, as duas perto de uma pedra, provavelmente, nuas e abracadas.
Mais uma vez, sua lembrança ativou aquela área que ele desativara.
Escutara
ela falar disso algumas vezes, mas ao ver….ao ver e uma coisa totalmente diferente. E como quando avisam que um parente ou amigo próximo morreu. Você fica triste, mas quando vê o corpo no enterro e que realmente a ficha cai.
Foi ate a sala vagarosamente, tentando respirar fundo, e pegou a garrafa de Frangélico que ficava no bar. Sempre quis virar uma dessas no gargalo, sozinho. Agora ele ia. Estava mandando o mundo se foder. Ou, pelo menos, Juliana.
Desistiu de ver o resto. Ficou ali bebendo.
O vídeo…eles que mais deram curiosidade.
Glup. Glup.
Pegou uma das fitas e foi procurar na sala alguma fita adaptadora para ver.
Foi jogando todas as fitas pelo chão. Os craques, os filmes refletindo a luz, película rolando pelo chão, nada o interessava. Ele queria ver a verdade.
Encontrou.
Colocou a pequena fita no adaptador, ligou a teve e o vídeo.
Colocou. Letras por gerador de caracteres. Festa de Dia das Bruxas 94.
Casa
de um tal de Mironga. Lá estava ela dançando com uma garota e um garoto.
Normal, depois do que vira. Com certeza a câmera era de um deles, pois só mostrava o trio. Jorge sentia um ódio por dentro que jurava estar consumindo seu estômago. Ao ver sua atual namorada agarrada com uma garota (era outra!
Então foi mais de uma), seus olhos lacrimejaram de raiva. As lagrimas só serviam para tentar esfriar seu rosto consumido de ódio. Raiva, ódio, raiva ódio. Era assim que seu peito batia.
Depois, ela assumira a câmera e vira a ficante se amassar com o carinha. Uma cara de mané que não é possível descrever nestas linhas. Somente com uma foto.
Parecia que o pior já tinha passado. A casa começava a esvaziar, o som começava a ser um trip hop depressivo. Ledo engano. Os três subiram a escada de um canto da casa até um quarto.
“Eu tenho medo” – disse a garota.
“Mas a gente te mostra” – disse Juliana.
Os três entraram em um quarto. Provavelmente a cama dos pais do tal Mironga, uma cama de casal bonita. As fotos preto e branco na mesinha de cabeceira comprovavam isto.
Juliana deitara na cama. “Senta ali que a gente te mostra.”. Mironga fora para a cama e começara a tirar a roupa de Juliana. Jorge chorava, urrava, mas não tinha forças para apertar o parar do vídeo. Estava petrificado de ódio. Se se mexesse, quebraria tudo a volta.
Ela o chupava enquanto ele mandava beijinhos e conversava com a garota sentada, que parecia amedrontada e excitada. Quando já estava no ponto, ela parou e o colocou de quatro. “Olha, não e nada demais. E simples.”
Glup.Glup.Glup.
Acabou o Frangélico, mas não conseguia esticar os braços para pegar qualquer coisa alcoólica.
Mironga meteu-lhe a piroca no cú com um carinho surpreendente. Ela deu um berro de puro prazer, como ele nunca a vira fazer com ele. Nem camisinha estava o filha da puta, pensou.
Após isso a garota se juntou a eles.
E o bacanal durou uma hora e meia.
Após isso, sua mente deixou cair a ficha.
E a ficha durou dois segundos.
Sua tentativa de ménage com sua ex.
Sua bebedeira.
Sua decepção.
O fim.
Ela não amava ele, mas seu corpo.
A pica de negão.
E as historias dúbias que contou.
Ele deixou achar que era outra coisa.
E ela idem.
Mas ela foi pior.
Nunca soube viver com isso.
Nunca quis viver com isso.

Soltou um berro que poderia ser escutado de qualquer lugar do Baixo Gávea.
Abriu as mãos com força, fazendo todos seus músculos e ossos fazerem um som como se desalgemando. Tirando as amarras.
Levantou-se e pegou a garrafa da bebida mais cara. Um saque original envelhecido. Foi virando na boca. Foi urrando. Escutou vizinhos berrando, pedindo silencio, avisando que iam chamar a policia.
Mas agora ele estava livre.
Foi para seu quarto pegar suas coisas. Acendeu um maço de cigarros. O maço, seu ultimo, estava na cortiça dela, como símbolo de sua parada de fumar.
Como achou gostoso. Cada tragada era uma limpeza de alma. Como pode se livrar disso?
Acabava de pegar suas roupas quando o telefone tocou. Foi atender. “Oi, amor?”.”Oi”.”O Beto falou com você, ne?”.”HmHm”, era o máximo que queria falar.”Ele falou. Olha, vou ter que ficar mais aqui, depois eu te ligo. Você fica chateado?”. “Não.” “Pó, você é o Maximo.Te amo”. Silêncio. “Houve algo?”. “Hmhm.”"Tá bom então, Tchau.”. “Adeus”, ele respondeu.
Jurava ter escutado a voz do filhadaputa atrás dela. Nem queria mais saber se era neura.
Não era mais problema dele. Não conseguia conviver com isso.
Antes de sair, lembrou do ultimo detalhe. Foi para a sala e viu os restos do primeiro filme que viram juntos. Ele deu para ela de primeiro mês de namoro.
Procura-se Amy. A história de um cara que não conseguiu se relacionar com uma namorada que era lésbica e já tinha feito uma ménage histórica na pequena cidade de onde viera. Que cômica a vida, pensou ele, enquanto pegava a fita da ménage dela e colocava em cima da cama de seus pais, debaixo do travesseiro, onde ela não veria mas com certeza eles veriam.
A não ser que rolasse a ménage no quarto dela.
Afinal ele ouviu a voz de um fdp que a chamava de gostosinha.
Metida a religiosa filhadumaputa.
Juliana Fischer.

::Caim::

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Weirdos

28, dezembro, 2001 Paulo Marinho Sem comentários

:: CHInewsKI Online – Edição nº 36 – Rio de Janeiro, 28 de dezembro de
2001::

Weirdos

Sábado. Cinco e meia da tarde. O gerente do MacDonalds preparava para
fechar
o
estabelecimento. Ainda haviam algumas pessoas, a maior parte saída ou indo
para
os centro culturais, com suas roupas esquisitas.
Mas havia ali cinco pessoas diferentes. Uma garota de cabelos ruivos mal
lavados, cheirando a cigarro e atrapalhando vários de comerem
tranqüilamente,
enojados pelo cheiro. Olhava somente para a bandeja e comida. Parecia ter
medo
de alguém chegar perto, e ninguém o fazia com medo dela …Atacar, algo
assim.
Parecia uma daquelas que enlouquece do nada.
Dois amigos estavam perto dela. Bem, amigos não seria a palavra certa.
Tinham
batido um pequeno papo no caixa, algo sobre moedas e a nova nota de dois
reais.
Mas com uma pequena troca de olhares sentiram-se confortados. Parecia que
sabiam
as histórias de cada um. A solidão plena que faz com que cada oi seja uma
luz na
alma. Também tinham feito algo que era raro de se ver. Mesmo sem se
conhecerem,
sentaram-se juntos, sem uma palavra nem um com licença, numa das mesas de
dois
lugares. Um estava de frente ao outro, sem trocarem palavras nem olhares
diretos, mas pelo topo da íris viam-se se observando.
Bem mais distante de ambos, estava um homem de uns 30 anos. Roupas
rasgadas,
sujas e fétidas. Mas seu rosto não refletia isso. Era como se fosse um
novo
mendigo. Alguém que já fora algo na vida. Era difícil imaginar que não era
nada
mais do que um argentino que perdera tudo que tinha na última semana,
em um
saque acabaram com sua pequena lojinha e mataram sua mulher. Não sabia
onde
estava, sabia que tinha que comer um pouco. Seu corpo não conseguia mais
sobreviver de Velho Barreiro, embora já se acostumara as quantidades
cavalares
ingeridas. Olhava ao redor eletricamente, procurando bebida ou alguém que
pudesse dize-lo onde estava e quem era, afinal.
E perambulando pelo MacDonalds inteiro, uma jovem funcionária que
limpava a
lanchonete. Era seu primeiro dia de trabalho, logo perto do Natal.
Tinha que
ter
dinheiro. Perdera tudo que tinha, que já não era muito. Seu único real
contato
com o mundo trocou-a por uma loira que era mais segura, dizia ele e os air
bags
da vagabunda.
Loretta acendera um cigarro enquanto comia, estava sentindo-se mal.
Parecia
sentir o clima do lugar. A vibração das pessoas. Jussara chegara perto
dela
e
falara “Por favor…”. Antes de continuar a falar, um mero olhar de
ódio de
Loretta fizera se calar. Vira a necessidade de ajuda claramente no reflexo
da
luz fosforescente nas lágrimas que teimavam em não cair. Fernando
olhou para
ver
o que era aquilo que quebrava o silêncio do lugar, enquanto Toninho
aproveitara
a quebra da vigilância para vê-lo direito. Sim, parecia ser um cara legal,
pensou.
Diego levantara-se para vomitar no banheiro. Apesar de implorar pela
comida,
seu
corpo não estava acostumado a comer algo diferente de um peéfe nojento de
uma
birosca qualquer. Jussara não agüentou o som de vomito que ecoava no
silencio e
ligou um radio. Era propaganda de uma grande loja de departamentos,
lembrando
para não esquecerem de comprar nada pare seus amigos e família, falando de
uma
promoção imperdível, yada,yada,yada. Por três segundos todos pensaram em
como
era uma merda estar sem ninguém para dar um presente. Foi neste
momento que
tudo
começou, mas e melhor não começar a explicar isso agora. Depois
apresentarei
Felix e Getulio. Por enquanto vamos nos ater aos cinco esquisitos. Foram
somente
três segundos. O suficiente para que olugar parece-se um pub londrino na
mente
de cada um. Alem do radio, só se escutou-se suspiros e uma tragada de
Loretta. O
som do fogo queimando o papel e o fumo parecia uma fogueira para eles. A
necessidade de escutarem algo crescia.
O comercial acabou, entrando direto uma música. Devia ser um especial de
rock de
Natal. Tocava uma música de natal de John Lennon. A sensação de
solidão, de
morte, tomou-os. Loretta fitou o canto da íris de Fernando que a
observava.
Ele
queria come-la, pensou. Todos os filhasdaputa só queriam isso. E ele
pensando em
como ela era bonita por detrás dessa fachada de solidão. Toninho via com
olhar
austero o olhar de seu companheiro de mesa, analisando-o. Ele queria
come-lo.
Parecia que ate que toparia, mesmo sem ser homo. Também estava carente. E
parecia ter no fundo aquela duvida de quem nunca experimentou um homem o
beijando e acariciando. Típico destes caras hiper sensíveis. Nada mais que
mais
uma bicha enrustida, pensou. Seus olhares se encontraram e sorriram, tendo
por
trás a tristeza de não conseguirem abrir a boca.
Fernando sentiu-se comido pelos olhos dele. Estranhou, mas do jeito que
estava,
não achou tão ruim assim. Afinal, já era uma forma de alguém pensar
nele. E
lembrou daquele pedaço dele que sempre ficou em duvida de sua
heterossexualidade. Não, pensou, isto so esta vindo porque estou
deprimido e
sozinho. Fechou a cara novamente.
O argentino saiu do banheiro quando começou a tocar uma outra musica. Um
punk
dos Ramones não muito conhecido. Mas aparentemente todos aqueles ali
conheciam a
musica. Quem diria, uma musica dos Ramones de Natal? Todos soltaram um
sorriso.
Loretta gargalhou alto e cobriu a boca ficando sem graça. Todos
olharam para
ela, e tirou a mão de sua boca, mostrando um bonito riso amarelo e com
pedaços
de carne entre os dentes. Isso só fez com que os outros rissem junto, por
vontade e por acharem engraçado.
Mesmo sem acharem que sabiam a letra, estavam todos cantando juntos. E uma
alegria tomando conta. A voz parecia um mantra silencioso que tomava e
ecoava no
silencio do lugar. E a voz bêbada e com sotaque do argentino só fazia a
situação
mais engraçada.
Merry Christmas, i don’t wanna figth tonight.
O saudoso Joey Ramone entoava sua letra, e o coro da lanchonete o
acompanhava.
Agora todos se olhavam. Jussara dançava com sua vassoura, e houve um
momento
em
que todos se concentraram nela, rindo. Sem perceber, Toninho e Fernando
bateram
sem querer suas mãos. E no toque sentiram algo preenchendo o vazio de seus
peitos. Assim como todos ali sentiam.
Era um morto trazendo a vida de volta para mortos vivos. Todos eles tinham
motivos para não quererem brigar nesta noite. Sejam com suas famílias,
sejam
com
suas recordações, sejam consigo mesmo. E o som de suas vozes ecoando
faziam
sentirem-se juntos. Os olhares nunca mentem, já falou um grande psicólogo.
Acabou a música. Mesmo longe do Natal, sentiam-se com a festa feita
adiantadamente. Cada um seguiu o seu rumo, exceto Toninho e Fernando, que
foram
tomar um chope num bar perto dali. E Jussara e Loretta, que foram bater um
papo
sobre homens e suas complexidades. Pensando bem, somente Diego saiu dali
sozinho. Mas para se reunir com uma família de mendigos que ficava na
Uruguaiana, com quem começava a se sentir uma nova família.
E nenhum deles se sentiu vazio, pelo menos por uma noite. E não brigaram
nesta
noite.

::Caim::

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Até quando você vai levando?

27, novembro, 2001 Paulo Marinho Sem comentários

:: CHInewsKI Online – Edição nº 33 – Rio de Janeiro, 27de novembro de
2001::

Até quando você vai levando?

Cara, a crise está num ponto que não tinha idéia mesmo. Tirar estas férias
que estou tirando teve suas vantagens, mas acho que estão chegando no fim.
Das vantagens, não das férias. Antes opcionais, estão virando forçadas.
Trabalho com tudo relacionado a Internet. Tirando um freelancer aqui e
acolá, não surge uma oportunidade. Ando falando com algumas pessoas
disso, e
cheguei na seguinte conclusão: antes haviam, no mínimo, vagas de
estagiários, agora até estas estão sendo cortadas! Há um ano, tinha que
desligar meu telefone para não receber convites valiosos de empresas (eu e
vários que trabalham na área). Agora, temos que ter certificados que valem
três mil dólares para conseguir um emprego de seiscentos reais. E sendo
explorado até a raiz do cabelo.
O mais legal é você falar com uma empresa como o Real Banking e eles
falarem
que não podem contratar devido aos acontecimentos do dia 11 de Setembro.
Todo mundo diz o mesmo. Creio que a única coisa que fez este dia ser tão
impactante foi o de todo mundo estar com tanto medo que começou a cortar
funcionários, cortar investimentos, assim fazendo a bolsa cair, o PIB
cair,
e criando uma bola de neve que não tenho a menor idéia de como vai parar.
Acredito que estamos na maior crise do país. Sei que já tivemos inflação
maior que 50 por cento ao mês, mas agora podemos até estar com ela baixa,
não há emprego. Não há esperança. Um dos maiores negócios do Brasil, o Boi
Gordo, fechou as portas, deixando as poucas esperanças que algumas pessoas
tinham ir embora. As maiores empresas do país demitem em massa. E as
menores
mais ainda, se não fecham as portas.
Às vezes, minha vontade é me dopar e esquecer que o mundo existe, mas nem
isso dá. Se dopar também está ficando caro. Acho que deve ser o maior
negócio atual. Estou pensando em entrar no câmbio negro do Lexotan.
Começar
a ficar no ponto de ônibus, ver um cara triste e falar: “Ei, cara, ta mal?
Ta num emprego ruim? Ta brigando com a mulher? Te arranjo uma parada
da boa.
Não, não é droga não. É Lexotan. É legal. Se você for num médico, é
exatamente isso que ele vai te receitar.”
Aqui no Rio de Janeiro sei que as coisas estão mil vezes piores que São
Paulo, camaradas paulistas (ou exilados). Fiz uma pesquisa pessoal e
vi que
o ÚNICO estado com certa procura de profissionais formados é São Paulo. E
mesmo assim, menor do que um quarto do ano passado. Se não bastasse
isso…
a água vai de mal a pior…a conta de luz está aumentando e o apagão
chegando (alguém ainda se lembra do apagão? Ando pelas ruas e acho que
não)… a tal Hoseana vai ganhar a eleição (garanto)…não conheço um
bairro
em que não se escute tiros de madrugada….
Ta foda… Esta situação até bloqueou o lado Caim. E até o Tommy. Chegamos
num ponto onde cria-se uma linguagem de informática dita como
revolucionária, todas as revistas e experts dizem que é o futuro, mas
ninguém sabe o que ela é e pra que serve direito! Tem algo muito errado. E
estou falando sério. Não, não vai vir o comunismo. Mas é aquela coisa de
História: a mola histórica da revolta das massas está quase totalmente
encolhida, acho que não falta muito para ser solta. É assim desde a
invenção
do fogo.
O pior é ver tanta gente alienada. Intelectualóides falando no bar sobre
isso e indo logo depois gastar dez reais num copo de uísque. Estamos
chegando num ponto de desespero. Sei porque guardei uma boa grana e estou
vendo que, apesar de ter investido, não cresce mais, apesar da dita
inflação
baixa. E investir em que? Está tudo fechando, tudo pelo maldito 11 de
Setembro.
Cheguei a achar que Bin Laden poderia ser a primeira explosão da mola.
Talvez tenha sido. Mas o estranho é não haver mais movimentos
populares…está tudo tão…quieto…alienado… só vendo o Brasil nas
eliminatórias, vendo Casa dos Artistas… ta indo tudo é pra Casa do
Caralho. Mas parece que ninguém reclama do Caralho entrando. E está
entrando
rápido, bem estupro. A cada dia, uma metida. E ninguém geme?
A mídia está colocando muito KY em nossas mentes. Muito. Nossos cérebros
estão meio que pastosos de tanto gel. Alguns até vêem que isto
acontece, mas
para minha surpresa, a maior parte deles são…jornalistas…e vários
trabalham para… estas mídias. Chegamos ao ponto de nos prostituir assim?
Estamos naquele ponto de que se não falta comida em casa não se reclama.
Caraca, falta muito pouco pra ser isso. Generalizado. Quero ver quando a
Coca Cola, que nos metem na boca para termos uma dupla penetração, estiver
com as tais algas. Quando o JB dezoito anos estiver em falta por terem
fechado a empresa. Talvez alguém lá de cima berre. Mas por enquanto, a
maior
parte deixa que nos metam… Ficamos “De Olhos Bem Fechados” para a
putaria
em nosso rego.
Falo por mim. Já vi. Dói. Abri meus olhos para ver que já estou com a boca
cheia e não dá pra berrar. Estou pensando em ir pro campo e plantar o que
como. Viver a luz de velas. Montar um gerador à luz solar. Ir para
Catalão,
em Goiás, minha cidade predileta no mundo (tem três quadras). Isso é
anarquismo? Comunismo? Neo-socio-capitalismo pós-selvagem?
Sei lá o que é, mas sei que, mais um pouco, é a única solução. Vai ter
terreno do Boi Gordo por lá a venda. Já estou tirando na minha viola as
músicas do Almir Sater. Acho que lá não vai ter Bin Laden , Bush ou
Argentina querendo por no meu cu. Se tiver, pelo menos vou estar
alimentado
e no clima de luz a velas. Mais clima. E pelo menos lá, estarei de
olhos bem
abertos. Abandono o 2001 pra voltar pra Guerra do Fogo. Pelo menos nessa
época perdida não tinha economista ou terrorista pra me encher o saco. No
máximo, um Caiado, que a gente expulsa a tiro. Mas sem gatilho
salarial, nem
Cruzado, seja de esquerda ou direita. Só o Planalto Central.

::Caim::

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Meu Primeiro Gradiente

15, novembro, 2001 Paulo Marinho Sem comentários

:: CHInewsKI Online – Edição nº 32 – Rio de Janeiro, 15 de novembro de
2001::

Meu Primeiro Gradiente

Saiu correndo na hora do almoço. Não podia perder aquele emprego. Jamais.
Não pelo dinheiro, mas pelo bairro. Adorava. Perto de tudo. Do metrô, de Ipanema, do Flamengo. Principalmente da casa de Hélio.
Cumprimentou o porteiro do prédio. Antes ficava nervosa com isso , mas agora já se acostumara a freqüentar o prédio. Abriu e fechou a porta pantográfica com pressa. Só tinha uma hora e meia de almoço. Sorte que seu trabalho era a duas quadras dali.
Terceiro. Desceu. Também adorava aquele elevador. Quantas lembranças dele…
Andou pelo corredor varrendo sua bolsa atrás da chave. Lá no fundo, ao lado de fotos rasgadas. Tocou a campainha só para prevenir. Ninguém respondeu, então entrou. O cachorro dele veio pular em cima dela. Brincou um pouco com o pequeno beagle e foi para o estúdio de seu ex-namorado.
A parede toda era decorada de cds, lps e até instrumentos. No meio, uma bateria e os amplificadores. Na mesa de som, um sistema de áudio de fazer qualquer festa. Prestou atenção em como estava (dês)arrumado o lugar e pegou um dos lps pendurados. Este era especial mesmo. O vinil do último do Nirvana, In Útero. Colocou no toca discos, que imitava um gramofone, e foi direto para a faixa Heart Shaped Box.
Deitou-se no chão sujo de gimbas de cigarro, com o ouvido esquerdo bem próximo da caixa sonora. Fechou bem os olhos e ficou lembrando de quando se conheceram, no Hollywood Rock, na fila da cerveja, enquanto tocava esta música. Se ela tivesse que escolher uma trilha sonora para um momento como aquele , seria esta, sem dúvida. Alisou o carpete como alisou as costas dele naquela noite. Revoltou-se ao lembrar que toca discos não tem função de repetir a faixa. Lembrou de onde estava e resolveu colocar outro disco.
Pegou o último do Radiohead, e foi para You and Whose Army?. A música era bem triste, ajudava-a a voltar a realidade. O cachorro chegara perto dela e sentara-se perto da vitrola, também apreciando a música. Era impossível não ter aprendido isso, após dias e dias escutando seu dono tocar ou ouvir músicas. Desde bebê, ele fora educado assim. O Coelho bebê… ela lembrava….
Pegou o vinil dos Saltimbancos Trapalhões, que ela dera a ele em seu aniversário de trinta anos. Começou a pular e correr de um lado para outro, sendo seguida pelo cachorro. Uma pirueta, duas piruetas. Correu pela casa, chorando de tanto rir do cachorro. Foi pela cozinha, pela sala, e o cachorro vibrando por brincar com sua “mãe”…
Pelo quarto. Havia uma foto do Hélio com outra na mesa de cabeceira. Já faziam…. cinco meses? Ele a trocara por ela, filho da puta. Pegou sua bolsa e ia bater na foto até que se lembrou… sua coleção de músicas.
Não,
isso ela não podia perder. Ele, tudo bem, mas os álbuns… os instrumentos.
Jurava que mais um mês de almoços por ali e já saberia tocar todo o OK Computer. Nada que um pouco de inteligência e um livro de tablaturas não fizesse.
Colocou tudo de volta no lugar, exceto o Radiohead. Sentou-se no chão, tirou a guitarra de sua maleta e ficou ali, tentando tocar. As letras podiam até não falar nada, mas para ela falava. Ficou uma meia hora ali, até aprender a tocar mais uma música.
Arrumou tudo exatamente como estava antes de chegar. Agachou-se, brincou com seu bebê um pouco e foi para o elevador. Enquanto esperava o elevador, pensou se devolvia a chave. Olhou a foto rasgada que ainda não tirara da bolsa. Ela era tão cinematográfica que fizera um corte exato entre eles.
Lembrou de toda a coleção, de tantos compositores esperando para serem devorados, e entrou no elevador, jogando a foto pelo espaço entre o elevador e o fosso. “Quando saísse daquele emprego e o bebê crescesse, eu devolvo”, pensou. Como todo dia.

::Tommy Molto::

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O Mundo de Andy

31, outubro, 2001 Paulo Marinho Sem comentários

::CHInewsKI Online – Edição nº 30 – Rio de Janeiro, 31 de outubro de
2001::

O Mundo de Andy

Acordei as seis e treze da manhã. Tempo suficiente para acender um cigarro e ir para a janela sair na foto de satélite que nos monitora.
Tinha sonhado que estava em um bosque onde um coelho brincava de fazer sombras com formato de pessoas numa árvore. Jurei estar tendo amnésia e deja vu ao mesmo tempo.
Coloquei café instantâneo no microondas e achei que estava voltando no tempo. Vi um vidro de água em pó em cima da mesa, mas fiquei em dúvida em o que misturar.
Não estranhem às vezes o meu silêncio. Provavelmente estou falando entre parênteses.
Vesti-me rapidamente e fui pegar o carro. Uns garotos que me acham excêntrico estavam tacando papel higiênico molhado em meu carro. Falei para eles pararem. Eles fizeram caretas. Aproveitei que minha casa era feita de madeira balsa e a levantei sob minha cabeça, fingindo que iria tacar. Correram apavorados.
Andei dez quarteirões ara chegar em meu trabalho. Procurando vaga, fui andando por uns dez minutos até encontrar a vaga perfeita. Já que estava na porta de casa, deixei as chaves do carro em casa e andei os dez quarteirões até o trabalho.
Sempre entro meio nervoso na enorme porta do museu. Ela tinha uns 5 metros de largura. Muita gente tem medo de altura, eu tenho medo de largura. Me dá uma sensação de vazio. O museu estava vazio para variar. Ele somente tinha as cabeças e os membros que não tinham nas peças de outros museus.
Passei o dia quase inteiro pastando. Fiquei observando uma foto rara que tenho de decoração, de Houdini tentando arrombar as portas de seu carro desesperadamente, tendo esquecido as chaves dentro. O máximo que ocorreu foi eu ter uma enorme vontade de ir ao banheiro na hora em que estávamos sem luzes. Graças a Deus as máquinas fotográficas tem flashes. Até dar a descarga num cago esquecido colocar o assento na privada, tirei trinta fotos do espécime. O papel higiênico também tem agora seu próprio “book”.
Chegando em casa, abri uma cerveja e fiquei vendo todos os 700 canais de língua estrangeira da televisão a cabo. Não parei em um. Era mais emocionante zapera sem parar. As vezes, achava que viajava no tempo de novo. Sete e trinta e dois. Hora de sair na foto de novo. Indo para a janela acenar para meu satélite amigo, quebrei um espelho por acidente. Com medo dos 7 anos de azar, liguei meu advogado. Avisou que entraria com um recurso e no máximo eu teria cinco em regime semi-aberto. Também acabei derramando removedor no meu cachorro enquanto estava no telefone. Ele sumiu. Fiz uma casa com cartas de taro para esquecer do fato. A casa teve tres andares e quatro pessoas morreram.
Hora de dormir.

Para dois dos mais esquisitos comediantes de todos os tempos, Steven Wright e Andy Kauffman

::Caim::

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